Ao terminar a sessão de O Bolo do Presidente, o filme iraquiano tão amado e aplaudido deste último ano, eu pensei o quando filmes com crianças fofas em meio ao caos de situações extremas em seus países tem me incomodado ultimamente.
Quero deixar bem claro antes de mais nada, que o filme é ótimo, a menina que precisa conseguir os ingredientes para que sua avó faça o bolo para o presidente Sadam Hussein é fofa, a história é interessantes, é um thriller infantil bem escrito e muito bem dirigido mas essa obsessão infantil na minha opinião já se tornou um estilo um tanto quanto extremista cinematográfico.
A ponto de eu nem ter assistido mais tantos filmes com crianças e adolescentes. Vi este por causa de todo burburinho em Festivais e nas redes.
Me diverti? Sim. Pretendo ver esse tipo de filme daqui pra frente? Cada vez menos até não vê-los mais.
Como eu disse, a menina protagonista do filme, vivendo em um Iraque arrasado pelas sanções mundias antes da invasão americana, é escolhida em um sorteio na escola a levar, no dia do aniversário de Sadam Hussein, um bolo bem feito e com recheio de creme para que sua classe comemore a data.
Detalhe: Sadam obrigou de verdade a todo mundo fazer bolos e comemorar mesmo de longe seu aniversário. Inclusive o filme tem uma cena real disso que é bem doida.
Voltando à menina, do alto dos seus, sei lá, 11 anos de idade, ela vai para casa, pergunta para a avó quais ingredientes são necessários para o bolo e sai pela cidade atrás da farinha, açúcar e tudo mais.
Parece o Amrum que eu resenhei essa semana, onde o adolescente nazista tenta conseguir também farinha branca, manteiga e mel para sua mãe em depressão finalmente comer e dar de mamar a seu recém nascido.
O paralelo óbvio é o de países em crise extrema, onde mulheres velhas e muito novas são as únicas que tem uma vida “normal” já que os adultos estão na guerra. E onde um pouco de farinha vale tanto ou mais que a vida de uma criança qualquer.
O Bolo do Presidente talvez só seja melhor que seu compadre alemão Amrum pela estética, já que este filme iraquiano foi feito talvez com um quinto do orçamento do alemão, em uma periferia de um país de terceiro mundo onde nada é bonito esteticamente, já que o alemão também foi feito em uma periferia alemã, em uma ilha linda, com pessoas “bem vestidas”, e com uma coincidência incrível onde ambos protagonistas, a menina iraquiana e o menino nazista atravessam muita água para chegar a seus destinos, na Alemanha ele precisa sair da ilha e ir pra terra firme atrás da farinha branca na casa de seu tio oficial nazista e no Iraque a menina precisa se locomover com barquinhos por uma geografia cheia de córregos e partes inundadas em um país que em seus dias de glória talvez tivesse sido chamado de Veneza norte africana, já que falar oriente médio é um desrespeito colonialista.
O que a menina sofre para confeccionar o bolo do presidente está diretamente atrelado ao medo que ela sentiu quando seu professor em vestes militares não pediu no sorteio que ela trouxesse o bolo mas foi tão enfático e violento vocalmente que a menina quase desmaiou de medo na sala de aula, depois de ter pedido para ir ao banheiro para fugir do tal sorteio maldito, como a vó havia lhe ensinado.
Voltando à exploração infantil cinematográfica, é claro que o espectador passa a duração inteira do filme torcendo para a menina, que do alto de sua ingenuidade e também do alto de sua esperteza ao viver em um país prestes a ser arrasado, parece um mini Jason Bourne de saias, com a ajuda de um colega mais estigmatizado que ela própria, tentando conseguir seus ingredientes para sair pelo menos viva da próxima aula na festa de aniversário do presidente maluco.
NOTA: 


1/2
