Existem documentários de montanhismo que se contentam em ser apenas um registro de proezas físicas e adrenalina pura. E existem (algumas) obras como La Madone, de Laurent Jamet e Guillaume Pierrel, que compreendem que a verdadeira força de uma jornada reside na narrativa que ela desenterra ao longo do caminho.
O filme acompanha uma premissa que, por si só, já seria um épico visual: os alpinistas Lucien Boucansaud e o próprio diretor Guillaume Pierrel embarcam em uma expedição ininterrupta de 12 dias pelo maciço do Mont Blanc.
O objetivo? Conectar, em uma única e exaustiva sequência, sete estátuas da Virgem Maria espalhadas pelos picos mais implacáveis da região, cruzando as fronteiras entre França, Itália e Suíça.
Visualmente, a direção tira o máximo proveito da gramática audiovisual do cinema de montanha. O uso de planos abertos não serve apenas para ostentar a beleza dos Alpes, mas para estabelecer a pequenez do homem diante da natureza implacável. Sentimos a textura da rocha, o frio do vento e a vertigem da altitude. Contudo, é naquilo que não é dito de imediato — na construção do espaço como um repositório de histórias — que o documentário encontra sua verdadeira alma.
O que começa como um desafio atlético de tirar o fôlego logo se transmuta em uma fascinante investigação de patrimônio e tradição oral. Ao longo da travessia, a dupla de alpinistas se depara com vestígios fotográficos e materiais que contam uma história esquecida pelo tempo. Descobrimos que a instalação dessas imagens sagradas naqueles locais quase inacessíveis foi obra do lendário guia de montanha Alphonse Couttet.
É nesse momento que La Madone transcende o nicho dos esportes radicais. Couttet surge na tela quase como uma figura mítica, uma daquelas lendas regionais cujos feitos desafiam a lógica e que agora, graças à expedição, têm sua história materializada. O documentário se torna um diálogo entre gerações: os alpinistas de hoje refazendo os passos, lendo o mesmo relevo e enfrentando os mesmos perigos que um pioneiro enfrentou décadas atrás, movido pela fé e pela devoção.
Essa sobreposição de tempos transforma os cumes do Mont Blanc em um grande museu a céu aberto. O filme acerta em cheio ao equilibrar o ritmo frenético da sobrevivência nas alturas com pausas contemplativas para a memória e o resgate histórico.
La Madone é, em última análise, um filme sobre herança. Mostra de forma brilhante que, por trás de cada desafio físico extremo, existe a necessidade humana de deixar uma marca no mundo — seja fincando uma estátua de bronze no teto da Europa, ou capturando essa odisseia através das lentes de uma câmera para que a lenda não se perca no vento gélido das montanhas.
NOTA: 

1/2
