{"id":2774,"date":"2005-12-31T16:51:54","date_gmt":"2005-12-31T18:51:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.geminis.ufscar.br\/?p=2774"},"modified":"2005-12-31T16:51:54","modified_gmt":"2005-12-31T18:51:54","slug":"the-unfinished-portrait","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/geminisufscar.com.br\/grupo\/2005\/12\/31\/the-unfinished-portrait\/","title":{"rendered":"The Unfinished Portrait"},"content":{"rendered":"<p>No cinema contempor\u00e2neo, a troca furtiva de olhares com o desconhecido e um pouso r\u00e1pido sobre os seres e as coisas est\u00e1 em primeiro plano quando se trata de interrogar o sentido da exist\u00eancia. Por ser um dos principais objetos da escritura cinematogr\u00e1fica, essa interroga\u00e7\u00e3o fundamental poderia resvalar facilmente para o melodrama ou cair na vala comum do esquecimento na perspectiva do pragmatismo acad\u00eamico. Mas o homem que escreve o roteiro da sua pr\u00f3pria morte n\u00e3o \u00e9 um ser comum. Esse homem \u00e9 um ser extempor\u00e2neo, possu\u00eddo pelas for\u00e7as da vida que transformam o cinema num movimento repleto de emo\u00e7\u00e3o. Por quais motivos esse homem escreveria o roteiro do filme de sua pr\u00f3pria morte se n\u00e3o fosse para nos deixar, atrav\u00e9s desse plano-seq\u00fc\u00eancia, o retrato inacabado das suas emo\u00e7\u00f5es em movimento?<br \/>\nFoi por esse motivo e, talvez, por se sentir como um p\u00e1ria entre os seus, que o professor Eduardo Leone decidiu produzir seu filme-testamento. \u201cThe Unfinished Portrait\u201d (Brasil, 19 min), foi realizado no MidiaLab \u2013 Projeto FAPESP\/USP, durante o segundo semestre de 1999. Na abertura do filme, Eduardo Leone nos apresenta o cineasta Samuel Ray e nos informa que esse homem atravessa uma grave crise existencial. Atra\u00eddo pela id\u00e9ia do suic\u00eddio, Samuel Ray pretende acertar as contas com o passado e ir viver no ex\u00edlio. Nesta cr\u00f4nica, o professor Eduardo Leone vasculha em profundidade a tela do imagin\u00e1rio, fazendo uso da mem\u00f3ria e da imagina\u00e7\u00e3o para tensionar a palavra e produzir imagens liter\u00e1rias. O que mais surpreende no trabalho do professor Eduardo Leone \u00e9 o seu extraordin\u00e1rio poder de extrair emo\u00e7\u00e3o do movimento, procurando inculcar em todos a vis\u00e3o de que a unidade dram\u00e1tica de uma obra \u00e9 constru\u00edda pela montagem, explicando que esse princ\u00edpio deve estar presente na elabora\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a f\u00edlmica: o roteiro. Essas rela\u00e7\u00f5es revelam tanto o estilo de narrar quanto as formas de constru\u00e7\u00e3o do discurso audiovisual.<br \/>\nEduardo Leone pensava a constru\u00e7\u00e3o do discurso audiovisual como um dramaturgo. A sua dramaturgia se fundamentou na busca, atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es que a montagem cria, do pathos cinematogr\u00e1fico e do tipo de articula\u00e7\u00e3o que se faz necess\u00e1ria para atingir os espectadores. Para ele, o mundo real s\u00f3 tem exist\u00eancia quando passa a existir como o \u201creal da tela\u201d, numa perspectiva conseq\u00fcente. Essa vis\u00e3o do processo cinematogr\u00e1fico foi formada a partir do referencial te\u00f3rico dos pensadores russos, principalmente de Sergei Eisenstein e pelas matrizes dram\u00e1ticas do cinema industrial norte-americano. A no\u00e7\u00e3o de montagem dram\u00e1tica \u00e9 o principal legado da sua produ\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica. A for\u00e7a motriz desse pensamento foi desenvolvida ao longo de sua trajet\u00f3ria como educador e realizador, incorporando em suas pesquisas com o entusiasmo que lhe era peculiar &#8211; as novidades da tecnologia do cinema digital.<br \/>\nEm \u201cThe Unfinished Portrait\u201d, o narrador do filme articula a voz em off, mesclando cenas em flashback com outras atuais e fazendo uso do Chroma-Key para desenhar a arquitetura de um espa\u00e7o\/tempo, na qual os epis\u00f3dios da vida do cineasta s\u00e3o relacionados atrav\u00e9s da montagem. Para Eduardo Leone, \u201co termo narrador deve ser entendido como aquele que instaura uma narra\u00e7\u00e3o e a desenvolve, moldando situa\u00e7\u00f5es, a\u00e7\u00f5es e personagens, podendo interferir e paralisar o tempo narrativo da hist\u00f3ria que est\u00e1 sendo desenvolvida\u201d.\u00a0<a title=\"\" href=\"http:\/\/www.blogger.com\/post-create.g?blogID=20133462#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Partindo dessa premissa, o narrador faz uso da tecnologia digital para articular os diferentes materiais e dar \u00e0 narrativa um car\u00e1ter documental. O portal criado pela montagem permite ao espectador visualizar Samuel Ray sentado num bar do aeroporto internacional de S\u00e3o Paulo. O cineasta coloca de um lado o cart\u00e3o da sala VIP e, de outro, a estrela (de xerife). Diante de si, o Johnnie Walker Black Label e entre baforadas do indefect\u00edvel Benson &amp; Headges Menthol, engata a marcha-r\u00e9 da chegada do trem na esta\u00e7\u00e3o em busca do grau zero da emo\u00e7\u00e3o. Os filmes inacabados desfilam na tela em branco do sagu\u00e3o do aeroporto e neste momento derradeiro de sua vida, Samuel Ray pensa no cinema como motion, um movimento repleto de emotion. Na verdade, ele sempre viveu a emo\u00e7\u00e3o do movimento, seguindo as pegadas dos cineastas outsiders que lhe emprestam o nome: Nicholas Ray e Samuel Fuller, mestres na arte de criar emo\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da imagem em movimento.<br \/>\nNicholas Ray e Samuel Fuller foram cineastas que fizeram do cinema um campo de batalha e, talvez por isso, viveram como exilados no sistema produtivo de Hollywood. Foram esses cineastas outsiders, exploradores do grau zero da emo\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, que fizeram as honras de \u201cO Amigo Americano\u201d (The American Friend, 1977), no ex\u00edlio de Wim Wenders nos EUA. Por isso, o cineasta alem\u00e3o n\u00e3o quis que a morte levasse \u201cO Amigo Americano\u201d, com quem aprendeu a criar emo\u00e7\u00e3o em movimento. Movido pelo sentimento de urg\u00eancia, Wim Wenders registra os \u00faltimos meses de vida de Nicholas Ray em \u201cA Morte de Nick\u201d (Nick\u2019s Movie, 1980). Este filme narra de forma simples e sens\u00edvel, o jogo de permuta que as imagens em movimento operam entre a fic\u00e7\u00e3o e a realidade, tornando-se imposs\u00edvel distinguir se aquilo que est\u00e1 sendo narrado \u00e9 verdadeiro ou n\u00e3o.<br \/>\nA admira\u00e7\u00e3o de Eduardo Leone por estes cineastas nasce da sua condi\u00e7\u00e3o de exilado e, tamb\u00e9m, devido \u00e0s suas inquieta\u00e7\u00f5es quanto ao futuro do cinema. Essas refer\u00eancias inspiram o cineasta Samuel Ray a retomar em \u201cThe Unfinished Portrait\u201d a jornada que o conduz para uma estrela solit\u00e1ria, motivo pelo qual decide fazer o balan\u00e7o final de sua vida. Neste filme, Eduardo Leone explora os principais temas da vida do cineasta \u2013 suic\u00eddio, ex\u00edlio, cinema e a montagem das paix\u00f5es que nunca teve. Esses temas estavam presentes em \u201cA Morte da Strip-Tease\u201d, um filme dos anos 60 que marca sua estr\u00e9ia na realiza\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Eduardo Leone utiliza a voz em off como uma t\u00e9cnica narrativa capaz de entrela\u00e7ar a mem\u00f3ria dos acontecimentos \u00e0s formas de esquecimento. Essa estrat\u00e9gia narrativa permite ao narrador do filme definir a intensidade e a textura das imagens vindas do passado ou do presente sufocante, fazendo com que essas imagens se materializem no \u201creal da tela\u201d como a mem\u00f3ria dos acontecimentos. Esse link estabelece os contornos do retrato inacabado que emerge das correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as que atravessam a personagem de imagem e som , empurrando o cineasta na dire\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio e da morte numa terra distante.<br \/>\nNum mundo dominado pelos jogos de apar\u00eancia, o suic\u00eddio representa a impossibilidade da comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 o narrador que escolhe, seleciona e avalia as conex\u00f5es poss\u00edveis entre a id\u00e9ia do suic\u00eddo e o roteiro que o cineasta escreve sentado numa mesa do aeroporto. Samuel Ray havia sentado l\u00e1 muitas outras vezes, s\u00f3 que entre pessoas. Desta vez, est\u00e1 sozinho entre espa\u00e7os vazios. Nessa seq\u00fc\u00eancia, a voz em off \u00e9 que adiciona realidade \u00e0s imagens do passado, acelerando a passagem do tempo e impulsionando a narrativa para o seu desfecho. A voz em off \u00e9 a express\u00e3o de um conflito entre o mundo das apar\u00eancias e os temas abordados pelo filme. Ao fundir o narrador \u00e0 personagem e ao texto que est\u00e1 sendo escrito, o diretor estabelece as condi\u00e7\u00f5es dial\u00f3gicas para o surgimento de uma voz subterr\u00e2nea que diz algo em sil\u00eancio, ao mesmo tempo em que se nega a fazer um percurso centrado nas refer\u00eancias biogr\u00e1ficas. Ao contr\u00e1rio, essa voz intimista articula e entrela\u00e7a em seu percurso as mem\u00f3rias e recorda\u00e7\u00f5es de uma personagem \u00e0 deriva, fornecendo novos significados para a trajet\u00f3ria de uma vida que decidiu montar depois dos trinta anos.<br \/>\nA cr\u00f4nica dessa vida faz convergir as linhas de for\u00e7as para uma cena de duelo no sagu\u00e3o do aeroporto. Samuel Ray tira dos bolsos do palet\u00f3 um isqueiro que \u00e9 um pequeno rev\u00f3lver, acende um cigarro e aponta o rev\u00f3lver\/isqueiro para sua imagem refletida no espelho. Um fr\u00eamito distante percorre seu corpo no momento em que a imagem refletida no espelho \u00e9 sobreposta por aquela de um personagem preste a duelar em \u201cBlood in Mississippi\u201d, realizado por Eduardo Leone nos anos 70. Essa cena \u00e9 complementada pelas diferentes faces da morte em \u201cAs Tr\u00eas Mortes de Solano\u201d (Brasil, 1975), de Roberto Santos. A colagem de planos provoca a sutura do movimento de uma vida.<br \/>\nNa travessia de volta para o presente, ouve-se sons e barulhos que geram a curiosa sensa\u00e7\u00e3o de vozes vindas do al\u00e9m. Os fantasmas vivem novamente. M\u00e3os pegam um copo, colocam um pouco de Johnny Black, buscam o gelo mas a ca\u00e7amba est\u00e1 vazia. Foi sempre assim na vida: com Johnny e sem o gelo ou sem Johnny e com muito gelo. Samuel Ray larga o copo, olha-se no espelho e se v\u00ea pronunciando um nome inaud\u00edvel, enquanto os lugares vazios ao seu redor s\u00e3o habitados por fantasmas vindos do nada. O trabalho de montagem fornece os sentidos para a exist\u00eancia dessas personagens de imagem e som. Na perspectiva do narrador, as personagens e as a\u00e7\u00f5es do passado se reduzem a fragmentos de uma hist\u00f3ria inacabada e condenados a desaparecerem no \u201creal da tela\u201d. Os fantasmas que circulam pelas telas do mundo criam o portal e as condi\u00e7\u00f5es para o cineasta viver no ex\u00edlio.<br \/>\nNesse sentido, Samuel Ray funciona como uma esp\u00e9cie de alter-ego do diretor. A sua exist\u00eancia pertence t\u00e3o somente ao \u201creal da tela\u201d, mas \u00e9 a urg\u00eancia ditada pela proximidade da morte que determina, em grande parte, o processo pelo qual o narrador v\u00ea o mundo atrav\u00e9s dos olhos de Samuel Ray. Esse olhar \u00e9 potencializado pela id\u00e9ia da morte. Contra as verdades submersas no tempo e trazidas \u00e0 luz pelas lembran\u00e7as e recorda\u00e7\u00f5es das personagens de imagem e som, Samuel Ray retoma a escritura de um roteiro que nunca havia sido conclu\u00eddo. Na montagem desse plano-seq\u00fc\u00eancia, o portal da morte permanece em aberto, como na bela seq\u00fc\u00eancia em que as portas de uma capela mortu\u00e1ria se fecham atr\u00e1s do g\u00e2ngster (Robert de Niro), simbolizando a sua morte, em \u201cEra Uma Vez na Am\u00e9rica&#8221; (Once Upon a Time in America,1984), de Sergio Leone.<br \/>\nEsse foi um dos filmes que a pequena equipe de colaboradores teve o privil\u00e9gio de assistir na companhia do professor Eduardo Leone depois de um extenuante dia de trabalho. Abastecidos de Cutty Sark e muitas ca\u00e7ambas de gelo, passe\u00e1vamos do planejamento estrat\u00e9gico das filmagens para a leitura de obras importadas do EUA no sistema Laser Disc (os fumantes eram convidados a permanecer na varanda da cobertura). Nessas incurs\u00f5es pela cinematografia norte-americana, os coment\u00e1rios do professor Leone sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o do discurso audiovisual, iluminavam as faces cansadas dos membros da equipe de filmagem e faziam brotar sorrisos espont\u00e2neos de aprova\u00e7\u00e3o. Fic\u00e1vamos assim, durante horas, desenhando retratos inacabados e pensando no trabalho do dia seguinte. Nestas jornadas noite adentro, a seleta plat\u00e9ia de ouvintes\/espectadores conviveu na pr\u00e1tica com um dos principais te\u00f3ricos do cinema. Essas conversas perif\u00e9ricas diziam mais sobre o filme em constru\u00e7\u00e3o do que \u00e9ramos capazes de supor naquele momento.<br \/>\nNo dia seguinte, Samuel Ray prepara-se para o duelo final no sagu\u00e3o do aeroporto, na companhia do laptop. Na tela refletida no espelho do bar, est\u00e3o as imagens do passado (aeroporto de Congonhas em \u201cBlood in Mississippi\u201d), que ir\u00e3o dar origem a uma seq\u00fc\u00eancia de montagem de filmes, cart\u00f5es e pequenos objetos antigos. Esses signos afetivos s\u00e3o marcas ocultas que revelam segredos e desejos indecifr\u00e1veis. Quando o ba\u00fa de lembran\u00e7as fecha-se rapidamente com um grande estrondo, os fantasmas do passado desaparecem e a narrativa volta para o presente. No contracampo, entra em quadro o cineasta diante de uma garrafa Johnnie Walker Black Label. A reitera\u00e7\u00e3o desse di\u00e1logo provoca o dilaceramento da imagem refletida no espelho, abrindo espa\u00e7o para que o narrador fa\u00e7a uma revis\u00e3o cr\u00edtica da hist\u00f3ria do cinema. No ritmo alucinante de uma edi\u00e7\u00e3o de videoclipe, seq\u00fc\u00eancias de filmes sucedem-se na tela, enquanto o narrador tece coment\u00e1rios sobre a complexa constru\u00e7\u00e3o do discurso audiovisual. Para Samuel Ray, o montador \u00e9 um m\u00e1gico que tira da cartola mentiras que se transformar\u00e3o em len\u00e7os coloridos com apar\u00eancia de verdades ao criar conflitos atrav\u00e9s da dire\u00e7\u00e3o de olhares ou manipulando vozes, cores, sons&#8230;<br \/>\nO ensaio de uma revis\u00e3o cr\u00edtica do cinema \u00e9 interrompido pela chamada dos passageiros para o port\u00e3o de embarque. Samuel Ray retira do bolso o isqueiro com forma de rev\u00f3lver e o ma\u00e7o de cigarros, depositando-os sobre a mesa. Esse \u00e9 o sinal de que o cineasta vasculha a tela da mente atr\u00e1s de um sentido que fizesse escorrer sangue na superf\u00edcie da tela. Ouve-se uma nova chamada para embarque. Ele acende um cigarro com o rev\u00f3lver\/isqueiro e por entre baforadas, escolhe as armas do duelo. O local escolhido para a disputa \u00e9 o espa\u00e7o amplo e des\u00e9rtico do aeroporto. A paisagem desse lugar representa o espa\u00e7o m\u00edtico de um saloon do velho oeste, um lugar freq\u00fcentado por aventureiros que exploram territ\u00f3rios desconhecidos em busca da terra da liberdade. \u00c9 nesse espa\u00e7o que se desenvolve o enredo de um homem tr\u00e1gico, mergulhado num campo de for\u00e7as que tensiona o presente e n\u00e3o permite a reden\u00e7\u00e3o do seu passado. A montagem desse retrato inacabado reitera a emo\u00e7\u00e3o do movimento, deixando em aberto as perspectivas futuras. \u201cVoc\u00ea se mata e fica sentado esperando a morte\u201d. A frase repetida mentalmente por Samuel Ray transcende a mem\u00f3ria dos fatos e instaura o conflito final.<br \/>\nNo fim das contas, a estrat\u00e9gia de Samuel Ray para enfrentar o devir das for\u00e7as em jogo consiste em n\u00e3o reagir aos acontecimentos mundanos, refugiando-se na indiferen\u00e7a demonstrada pela personagem de Robert de Niro em \u201cEra Uma Vez na Am\u00e9rica&#8221;. Eduardo Leone adota esse modelo de a\u00e7\u00e3o e abandona as t\u00e9cnicas tradicionais de di\u00e1logo, fazendo da rea\u00e7\u00e3o (contracampo), o espa\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica realizado pelo trabalho da montagem. No roteiro que o cineasta escreve sobre o filme da sua morte, a n\u00e3o-rea\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de intera\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria dos acontecimentos e as formas de esquecimento. A n\u00e3o-rea\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de a\u00e7\u00e3o suicida, que propicia aos fantasmas do passado a oportunidade de se efetivarem no presente como uma pot\u00eancia avassaladora. Os conflitos no \u201creal da tela\u201d s\u00e3o criados nas margens desse di\u00e1logo poss\u00edvel e que n\u00e3o se efetiva, provocando a colis\u00e3o das diferentes trajet\u00f3rias que levam o cineasta ao suic\u00eddio.<br \/>\nSamuel Ray leva a m\u00e3o ao bolso do casaco e saca uma arma. Ouve-se um estampido \u2013 a bala atravessa a tela imagin\u00e1ria e o sangue escorre pela tela do laptop . Em \u201cThe Unfinished Portrait\u201d a id\u00e9ia do suic\u00eddio \u00e9 trabalhada no sentido figurado, com prop\u00f3sito de redimir o passado da personagem e fazer o trem do cinema voltar \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de partida na esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar o grau zero da emo\u00e7\u00e3o em movimento. Por uma ironia do destino, a personagem exilada no \u201creal da tela\u201d sobrevive aos eventos que protagoniza e recome\u00e7a a sua jornada em um n\u00e3o-lugar. Na montagem paralela dessa cena em \u201cSe Meu Apartamento Falasse\u201d (The Apartament, 1960) de Billy Wilder, ouve-se o estampido de uma arma sendo disparada no apartamento de C.C. Baxter (Jack Lemmon). A jovem Fran Kubelik (Shirley MacLaine), corre bastante assustada pelas ruas da cidade e \u00e9 recebida com uma garrafa de champagne aberta, em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 passagem de ano.<br \/>\nNa montagem do \u201creal da tela\u201d, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 retomada num avi\u00e3o. Samuel Ray est\u00e1 sentado sozinho entre poltronas vazias e a caminho do ex\u00edlio nos EUA, onde ir\u00e1 reencontrar numa mesa de bar com Johnnie Walker Black Label e muito gelo, os amigos americanos: Nicholas Ray e Samuel Fuller. A sua express\u00e3o \u00e9 densa e ele aperta com for\u00e7a a estrela (de xerife). Na tela do laptop que leva consigo, digitaliza as \u00faltimas palavras do roteiro que vinha escrevendo antes de embarcar para a estrela solit\u00e1ria. Depois fecha os olhos e na tela do desktop, surgem os cr\u00e9ditos finais de \u201cThe Unfinished Portrait\u201d. Montado numa carruagem de fogo (ou ser\u00e1 um t\u00e1xi?) que o conduz em seguran\u00e7a at\u00e9 a estrela solit\u00e1ria, Eduardo Leone acena um at\u00e9 breve adeus. No portal da estrela solit\u00e1ria e na companhia de um c\u00e9u de arco-\u00edris, monta o retrato inacabado tendo no horizonte o grau zero da emo\u00e7\u00e3o em movimento.<\/p>\n<p>Ficha T\u00e9cnica &#8211; \u201cThe Unfinished Portrait\u201d<br \/>\nAno de realiza\u00e7\u00e3o: 1999<br \/>\nSamuel Ray: Jo\u00e3o Carlos Massarolo<br \/>\nFotografia: Adriano Barbutto<br \/>\nAssistente de fotografia: Maur\u00edcio Baffi Pelegrinetti<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o: Eduardo Leone e Eduvaldo M. Oliveira<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Laura L. Canepa<br \/>\nM\u00fasica: Ney Carrasco<br \/>\nRoteiro e Dire\u00e7\u00e3o: Eduardo Leone<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.blogger.com\/post-create.g?blogID=20133462#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0LEONE, Eduardo, MOUR\u00c3O, Maria Dora. Cinema e Montagem. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1986,18p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cinema contempor\u00e2neo, a troca furtiva de olhares com o desconhecido e um pouso r\u00e1pido sobre os seres e as coisas est\u00e1 em primeiro plano quando se trata de interrogar o sentido da exist\u00eancia. 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