Poucas coisas são mais frustrantes no cinema do que testemunhar uma premissa com imenso potencial humano e dramático ser desperdiçada por escolhas pretensiosas. É exatamente o caso de The Ceremony (2024), longa de estreia do diretor britânico Jack King que transforma um dilema moral urgente em um exercício estéril, banal e desprovido de alma.
O ponto de partida do filme carrega todos os elementos para um thriller social instigante. No submundo invisível e precarizado de um lava-jato em Bradford, no norte da Inglaterra, trabalhadores imigrantes sem documentos sobrevivem sob exploração diária. Quando uma acusação banal de furto resulta na morte repentina de um jovem colega de trabalho, a engrenagem do medo entra em ação: chamar a polícia significaria a ruína do negócio e a deportação sumária de todos os funcionários.
A solução encontrada pelo supervisor romeno Cristi (Tudor Cucu-Dumitrescu) é desovar o corpo clandestinamente nas colinas gélidas de Yorkshire Dales. Para a missão noturna, ele recruta Yusuf (Erdal Yildiz), um trabalhador curdo mais velho que só aceita ser cúmplice com uma condição inegociável: que o jovem receba um funeral digno, com ritos islâmicos tradicionais. O choque cultural entre os dois, somado ao peso de carregar um cadáver na traseira de um carro pela noite adentro, prometia uma escalada de tensão psicológica arrebatadora.
Na tela, porém, a potência da história desmorona rapidamente diante da direção hesitante e das afetações formais de Jack King:
A opção pela fotografia monocromática em proporção de tela reduzida (4:3) busca forçar um verniz de “cinema de arte europeu”, mas funciona apenas como uma maquiagem estilística para disfarçar a superficialidade da encenação e a falta de texturas dramáticas reais.
Cristi e Yusuf nunca respiram como seres humanos de verdade; operam apenas como arquétipos utilitários a serviço de um roteiro engessado. Os diálogos dentro do carro soam artificiais, declamatórios e repetitivos, impedindo que o público sinta a gravidade da tragédia ou a complexidade do luto e da solidão que os dois enfrentam.
A viagem noturna que deveria ser sufocante, imprevisível e carregada de paranoia moral transforma-se em um passeio monótono. O filme arrasta-se entre silêncios vazios e tomadas estáticas contemplativas que nada acrescentam, matando qualquer sensação de perigo ou urgência.
Ao tentar fugir do melodrama fácil da questão migratória, a direção erra feio a mão e entrega uma frieza clínica que beira a indiferença. A dor da perda e o desamparo de trabalhadores clandestinos viram meros pretextos visuais para enquadramentos simétricos e ângulos pretensiosos.
The Ceremony acaba sendo só mais um filme com pretensão de ser cult, de ser considerado artístico, mas é afetado, pretensioso, parece aquele playboy que despeteia o cabelo milimetricamente para parecer descolado, sabe? Decepção.
NOTA: 

