Buddy, dirigido por Casper Kelly — o mentor por trás do cultuado curta viral Too Many Cooks —, parte de uma premissa clássica do horror subversivo: transformar a inocência colorida da televisão infantil em um matadouro sádico. No centro da trama está Buddy, um unicórnio laranja antropomórfico que comanda um programa educativo nos moldes de Pee-wee’s Playhouse e Barney, mas que opera nos bastidores como um assassino em série implacável, punindo com mutilações e mortes requintadas qualquer um que ameace quebrar a ilusão de “felicidade obrigatória” do cenário.
O equivalente brasileiro ao Buddy seria a Xuxa, ou qualquer outra apresentadora de programa infantil de décadasa atrás.
Visualmente, o filme é um triunfo do pastiche analógico. Filmado na proporção de tela 4:3, com iluminação branca de estúdio de TV, cenários de papelão pintado, maquetes e bonecos práticos impecáveis, Buddy transpira a estética dos anos 1980 e início dos anos 1990.
No entanto, essa embalagem retrô evidencia o maior dilema narrativo da obra: sua história teria um impacto infinitamente maior se tivesse sido lançada 40 anos atrás. Na década de 1980, subverter ícones infantis com violência gráfica explícita era um gesto ousado, transgressor e genuinamente perturbador, como visto na era de ouro dos slashers e na chegada de brinquedos assassinos às telas. Em 2026, após a saturação do subgênero de mascot horror (como os jogos da onda Five Nights at Freddy’s) e das dezenas de séries de terror analógico no YouTube, a revelação de que “o boneco fofo na verdade é um monstro cruel” já não causa o mesmo choque, soando como um conceito anacrônico esticado para caber em 90 minutos de projeção.
Se o roteiro não reinventa a roda do horror de mascotes, mas é ótimo mesmso assim, o longa se sustenta graças à direção precisa de Kelly e, sobretudo, a um elenco estelar que abraça a loucura da proposta com total seriedade dramática:
Keegan-Michael Key literalmente some dentro de Buddy, com um trabalho vocal primoroso que transita com facilidade assustadora entre o tom açucarado e cantarolante de apresentador de programa infantil e a frieza sádica de um predador desprovido de qualquer empatia.
Cristin Milioti confirma sua versatilidade no gênero fantástico ao interpretar uma mãe atormentada que é tragada para dentro da tela de TV. Milioti confere peso emocional genuíno e desespero tangível a uma história que, em mãos menos hábeis, poderia facilmente descambar para a paródia vazia. Lembrando que ela explodiu na série Pinguim.
O filme ainda tem Michael Shannon e Patton Oswalt dando vozes a objetos inanimados do programa com brilhantismo. Shannon rouba as cenas como Willie, uma marionete de caubói decadente e desbocada, enquanto Oswalt entrega o alívio cômico perfeito como Strappy, a mochila falante.
Diferente de filmes que amenizam o horror para atingir públicos adolescentes, Buddy não tem pudor em ser cruel. E eu amo isso.
Os assassinatos cometidos pelo unicórnio são viscerais, secos e sem concessões: crianças são empaladas, caixas de correio falantes têm a “boca” arrancada e colegas de elenco são espancados sem qualquer vestígio de remorso ou piedade. É nessa violência crua combinada com diálogos absurdos que a veia de comédia sombria de Casper Kelly se destaca.
NOTA: 



