Desde 2019 que “o cinema” vem procurando o novo Parasita.
Já passei pelo Nova Ordem, filme horroroso do mexicano Michel Franco, que me deu vontade de gritar na cara do marketeiro picareta que aceitou vender a ideia que esse filme seria bom. Ou mesmo o novo Parasita.
Além desse forma outro mas eu ouso dizer que diretamente do Cazaquistão, Sicko é sim o filho preferido de Parasita. E eu vi este #alertafilmão graças ao Fantasia Festival, obrigado pessoal.
Sicko parece ser mais um filme de casal jovem truqueiro, que se fosse feito em Hollywood sairia dando tiros e roubando bancos. Mas no Cazaquistão, assim como eu acho que aconteceria se Sicko fosse feito no Brasil, Azamat (Ayan Utepbergen) e Tancho (Dilnaz Kurmangali) devem milhões de dinheiros a ponto de um cobrador entrar em sua casa e bater nele e também nela. Cansados de se virarem com pequenos golpes, de roubar doce de criança e dinheiro de troco de velhinho, eles tem a brilhante ideia de pedir dinheiro para suas famílias dizendo que Tancho tem câncer. E que ela está em estado terminal.
Deu certo, os familiares se emocionam, todo mundo doa dinheiro para o tratamento e logo eles resolvem subir a posta: eles fazem uma vaquinha online pedindo dinheiro para a coitada, agora careca, de cadeira de rodas.
Tancho se mostra uma ótima atriz, incorporando uma mulher doente, depois de assistir muitos vídeos pela internet e aprender como elas se portam, como falam, como se maquiar para parecer uma paciente terminal. Tudo sob a batuta, sob a direção de seu amor Azamat, que se mostra um ótimo adminstrador de imagem e de processos “doentícios”, levando a história de Tancho a patamares que eles não esperavam.
A gente sabe que quanto maior a altura, maior a queda e os caras vão lá pra um inferno na terra.
Sicko tem um roteiro nada revolucionário, apesar de inteligente e bem escrito. E o que faz nascer um filme tão incrível é a direção do Aitore Zholdaskali, que não deixa pedra sobre pedra e faz com seus personagens o que precisa fazer para contar sua história.
Se Parasita é fino, chique, com uma direção de arte impecável, filme para Cannes e para Oscar, ticando todos os pontos necessários para tal, Sicko também tem tudo isso, só que ao invés de Cannes e Oscar pense num cinema mais punk, quase underground, com coragem para ser violento e inteligente e cruel e inovador ao mesmo tempo.
Zholdaskali criou um unniverso através do figurino e da casa do nosso casal preferido que me fez repensar o que eu conheço de cinema cazaque, e vocês sabem que eu amo o horror do Cazaquistão pelos filmes do meu querido Adilkhan Yerzhanov e de sua turminha. E falo sempre por aqui daqueles filmes.
E como já falei antes, o Cazaquistão deve ser um lugar tão incrível que quanto mais eu vejo filmes de lá, mais eu me surpreendo com a variedade de rostos e cenários e figurinos e formas cinematográficas que me fazem ter muito vontade de conhecer o país.
E Zholdaskali criou um mundo em Sicko que deve ser incrível, um mundo dentro do cinema cazaque que me deixa feliz por tudo isso, um mundo que deveria servir de referência pro cinema pelo resto do nosso planetinha, um mundo de personagens “reais”, apesar de não serem, muito pelo contrário.
Mas o que me deixou mesmo feliz foi que Sicko é dividido em 2 partes: a metade que o casal dá o truque em meio mundo e se entope de dinheiro e a segunda metade onde o casal sofre as consequências de seus atos.
Que. Segunda. Parte. Maravilhosa.
Violenta, sangrenta, sem vergonha, cruel, sem moral, sem desculpas, sem nada e com tudo.
Um tipo de filme, de contar a história que me surpreendeu e me deixou totalmente chocado e embasbacado, um tipo de cinema que cada vez mais faz falta, um tipo de cinema que chega como uma lufada de ar fresco, de ideias novas e de formas novas de contar uma história.
Quero mais desses.
NOTA: 




