No meio do nada da França dos final dos anos 1960, Jeanne (a estreante Clara Pacini) mora em um orfanato para meninas e todas as noites ela lê para uma das meninas pequenas o conto A Torre de Gelo de Hans Christian Andersen.
Mal sabia ela que quando foge do lugar, acaba dormindo escondida nos galpões onde está sendo filmada uma versão do conto, estrelada por uma atriz diva (escrota) vivida pela gigante Marion Cotillard.
A diretora Lucile Hadžihalilović (de Earwig que eu quase amei, quase odiei), construiu um universo noir hitchcockiano lesbo-afetivo onde a estrela do filme se encanta pela menina perdida nos estúdios que se torna uma coadjuvante e logo é alçada a uma personagem próxima a Rainha do Gelo.
Todo o filme, ou tudo o que importa, se passa nos cenários frios de A Torre de Gelo onde a ficção e a realidade se misturam e fazem com que a obsessão da rainha da história se confunda com a obsessão nascida da diva pela mesma menina do filme e da vida real.
Jeanne, que agora é Bianca (mais noir impossível), além de ser assediada pela diva, é também assediada “de leve” por Dino, o diretor do filme, vivido pelo diretor malucaço que amamos Gaspar Noé, que não por acaso é casado com a diretora Lucile, que nasceu em Lyon e estudou na mesma faculdade que eu.
A Torre de Gelo poderia ser uma versão ao contrário de A Malvada, aqui com a atriz famosa ficando obcecada pela atriz iniciante que nem atriz é.
Além disso a diretora Lucile usa todos os signos do filme noir cinquentista, de diretores como Hitchcock e de filmes como Os Sapatinhos Vermelhos, indicado no filme inclusive com um poster perdido pelas paredes do estúdio, para criar teias de relacionamentos intricados entre as 2 personagens principais mais complexas do que seriam na verdade, tudo pela dramaturgia.
O filme é bonito, como era Earwig, tem uma fotografia incrível, uma direção de arte bem acertada mas de novo é um filme que deixa muito a desejar, que quase chega lá e que pertence exatamente ao universo da diretora Lucile muito hermético e pessoal, mas que lhe valeu um prêmioespecial no Festival de Berlim deste ano.
NOTA: 

1/2
