Sirat, no islamismo, significa a ponte sobre o inferno que todo mundo precisa atravessar no dia da ressureição para alcançar o paraíso.
Sirat, o filme espanhol do diretor Oliver Laxe, significa quase a mesma coisa na “religião cinematográfica”: se o espectador consegue atravessar o inferno que é esse filme, consegue chegar ao paraíso que é o horror da nossa vida real, um paraíso comparado ao sofrimento que é assistir esse filme.
O grande truque cinematográfico que é Sirat (“the great cinema swindle”, obrigado Sex Pistols) conseguiu enganar o júri de Cannes que lhe concedeu o prestigioso prêmio do Júri além do fofo Palma Dog, o prêmio de melhor filme com cachorrinho.
Falaram que Sirat é uma ficção científica apocalíptica (Oi? Onde?) ou um road movie existencialista (não são todos?), como elogios gigantescos ao filme que na minha opinião enche os olhos de quem nunca foi a uma festa grande de música eletrônica ou a um festival de rock, ou a um show na praia ou a um sambão de fundo de quintal.
Sirat parece o filme que nerd gosta, daqueles nerds que não saem de casa e ficam babando em gente loucona dançando, neste caso, no deserto.
O filme acompanha Luiz (meu preferido Sergi López), um pai desesperado com seu filho pré adolescente, no meio de uma rave no deserto do Marrocos, procurando por sua filha Mar que está há meses sem dar notícia e que alguém lhes disse que ela poderia estar na festa.
Essa rave parece uma festa pobre e relegada ao terceiro plano de um mundo de Mad Max, do povo que não apareceu em nenhum filme do George Miller por ser tosco demais.
Detalhe que o povo da rave é de não atores, frequentadores de raves mesmo, que tem os mesmos nomes que seus personagens, o que é bem comum no cinema do diretor Laxe.
Voltando à história, um grupo desses “raveiros”, que mais parecem techno beduínos, porque moram em caminhões e ficam se deslocando de um ponto a outro do deserto fugindo da polícia para montar a próxima festa. Inclusive a festa onde Luiz chega com seu filho é interrompida pelo exército marroquino porque uma guerra começou e todo mundo precisa ir para as cidades e os estrangeiros voltarem aos seus países.
Mas os beduínos contemporâneos dizem que a filha de Luiz pode estar na próxima rave no meio do deserto e é para lá que eles vão, fugindo dos milicos.
As referências de Siri são as mais óbvias possíveis, de Mad Max (já citado) a Antonioni, passando por Lynch, Clouzot e todo e qualquer filme que se passe num deserto, do horrível Gerry do Gus Van Sant ao Zabriskie Point.
Mas o que me irrita mais que tudo em Sirat é o shock value do filme, que é o uso intencional e descarado de conteúdo chocante, perturbador, vindo do nada.
O que Gaspar Noé faz bem feito, as porradas que ele dá em seus espectadores do nada, quando eles menos esperam, mas que servem de uma forma ou de outra para “acordar” a história, aqui serve como um dispositivo de mudança de direção em um roteiro que não ia para lugar nenhum.
E olha que estamos falando de um road movie onde o filme está literalmente indo para algum lugar com uma função pré determinada.
Mas tudo se perde com a falta de profundidade, ou melhor, com a pseudo profundidade que Laxe pretende com seu filme.
Quando o filme passou em Cannes eu li que “muitas vezes o que importa é o caminho e não a chegada”, como se essa frase de parachoque de caminhão com a profundidade de um pires justificasse esse filme onde nem o caminho e nem a chegada importam muito, tanto que o diretor, a partir de um momento, assusta seu público para acordá-lo de um marasmo desinteressante que dependendo da droga que os techno beduínos usam, vão mudando de opinião. Só pra deixar claro, Laxe é queridinho do Festival de Cannes onde todos seus filmes estreiam e onde ele já ganhou alguns prêmios.
E daí não sabemos se a droga é forte demais ou se está estragada demais, inclusive em um momento pivotal do filme um dos malucões diz “eu estou tão doido que não consigo nem entender direito o que aconteceu”. E o que aconteceu foi quase que uma bomba atômica para o grupo.
Sirat é um filme de oportunidades perdidas, além de tudo isso que já falei. A fotografia muito simplista, quase documental, não é psicodélica o suficiente nem intrusiva suficiente, nnao viaja com os personagens, que viajam até demais, e não entram em suas mentes, o que nos faria entrar junto. E a trilha, que todo mundo acha incrível e maravilhosa, gente, saia de casa, frequente festas, tente entender melhor a cultura à sua volta e não fique s´ø enfurnado no seu mundinho porque olha, que decepção.
A ponte pelo inferno de Sirat é esburacada, daquelas de desenhos animados, daquelas de programas de olimpíadas malucas de programas japoneses de televisão, onde você vai perdendo coisas do seu bolso ou da sua sacola pelo caminho, por tudo cair em buracos no balançar furioso da falta de sustentação onde você se tiver sorte chega ao final.
Mas aqui ainda não sei se a sorte é chegar ao final ou se foi ter caído no primeiro buraco da estrada e ter seu carro estraçalhado.
Um dos “melhores filmes de 2025”, o “grande concorrente” de O Agente Secreto no Oscar 2026: se depender desse filme, o Oscar 2026 já é nosso.
Claro, mais um do #FantasticFest que vai passar na Mostra de Cinema de São Paulo e logo estreia por aqui.
NOTA: 

