Imagina a hipótese malucona. Respira fundo.
O Paul McCartney tinha uma casinha, um chalé, na Escócia, num lugar no meio do nada, onde só se chega por barco, chamado The Mull of Kintyre.
Em 1981 ele recebe uma visita bem peculiar do Stevie Wonder, que chega lá sozinho, remando, carregando suas malas.
Eles ficam por alguns dias no chalé conversando sobre nada, sobre a vida, sobre ser vegetariano, sobre como o mundo está se encaminhando para o fim. E sobre uma colaboração eventual.
Eles nadam pelados juntos (e mostram seus pintos enormes), eles tomam chás meio alucinógenos e fumam coisas bem alucinógenas.
E conversam.
E discutem.
São 2 dos maiores músicos superstars de todos os tempos, então não é fácil eles se entenderem logo de cara.
Mas em meio a todos caos, o inglês e o americano vão chegando a conclusões e mostram que mesmo gênios nascidos e criados com oceano entre eles encontram pontos comuns, que podem viver em harmonia, como as teclas do piano, o ébano e o marfim do título deste filme e do hit musical criado por ambos, uma das músicas mais icônicas daqueles anos 1980s.
Imagine se esse encontro tivesse ocorrido e se a música não tivesse “só” sido escrita por acaso em estúdio, como todo mundo faz.
Um dos diretores mais tresloucados, ou melhor, mais ousados de todos, o inglês Jim Hosking (de The Greasy Strangler) imaginou e voilá, temos o filme.
O que é muito bom nesse filme? Tudo. Hosking tira a aura de superstar de um Beatle e de um dos maiores americanos, os colcoa no meio do nada comendo salsicha vegetariana, não tendo onde dormir direito e eles, aos nosso olhos, sobrevivem lindamente.
Lembrei muito da música Fame que o Bowie escreveu com John Lennon onde eles cantam “o que você precisa está na sua limusine” e imaginei, por exemplo, Bowie e Lennon saindo de seus castelos de cristal e sendo irônicos o suficiente para escreverem aquela música cheirando kilos de cocaína.
Já o MacCa e o Stevie aqui são mais caóticos e sérios, no sentido mais cômico possível, tanto que o que sai desse encontro é uma música de esperança, de amizade, de conforto, não a auto crítica de Bowie/Lennin.
Ebony & Ivory é bizarro, engraçado, estranho em um nível que a gente vê cada menos menos no cinema e que geralmente vem da Inglaterra, onde os caras quando querem se arriscar se jogam de cabeça em penhascos pouco explorados no cinema atual, cada vez mais bunda mole, previsível, sem arroubos, sem ousadias, a menos, de novo, que você não esteja perto ou em volta de Hollywood mas sim venha de alguma cinematografia “periférica”, como costumam chamar que não tem milhões de dólares para fazer um filme e que pra isso vende a alma e todo sua vontade e experimentação e criatividade para o demônio americano.
NOTA: 



