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Novos formatos de ficção seriada televisiva para multiplataformas – comentários da aula de 30/03

A última aula foi responsável pela explicação do conceito e exemplos de narrativas seriadas, e de como tais histórias estão sendo transformadas (e transformando) o universo transmidiático no qual tendemos a nos inserir. A serialização não é um aspecto exclusivo de programas feitos para a televisão (algumas das mais conhecidas obras da literatura universal surgiram em forma de série; como por exemplo Sherlock Holmes, que em sua versão original foi publicada periodicamente em revistas literárias britânicas, como a The Strand Magazine). Umberto Eco deixa isso claro, em comentário feito no capítulo A inovação no seriado, publicado no Brasil dentro do livro Sobre os espelhos e outros ensaios:

É preciso destacar algumas diferenças na produção e no consumo das narrativas seriadas norte-americanas e as brasileiras. Apesar de termos séries de periodicidade semanal, e de existirem novelas diárias nos Estados Unidos, o mais comum é que o foco da audiência se concentre em programas semanais nos EUA e em novelas diárias na América do Sul. Algumas exceções podem ser citadas, como por exemplo o seriado In Treatment, produzido pela HBO. Por seu enredo principal ser uma simulação de sessões de psicanálise, seu formato foi aproximado para que o espectador acompanhe o programa do mesmo jeito em que ocorrem as sessões de terapia: um episódio por dia em que o analista recebe um determinado paciente, e no fim de semana é a vez dele consultar sua terapeuta. Toda semana, em dias fixos, os personagens se repetem, mostrando a jornada de auto-conhecimento e a evolução clínica de cada um deles. Para entender a complexidade de uma transformação tão abstrata é preciso que a pessoa que esteja assistindo In Treatment não perca nenhum capítulo, visto que uma “sessão” perdida dificulta a compreensão das descobertas pessoais dos pacientes, e portanto, de suas mudanças psicológicas na narrativa. Vale lembrar que a série é uma adaptação norte-americana de uma produção isralense, Betipul, e que também foram criadas versões em vários países. Seguem abaixo o programa do HBO e a adaptação holandesa:

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A complexidade das narrativas seriadas não se resumem a conceitos abstratos e psicológicos, como o exemplo anterior. A estrutura transmidiática, a criação de personagens complexos e de enredos simultâneos que se entrelaçam aumentaram a qualidade narrativa de programas televisivos, e a capacidade de reflexão exigida para a compreensão dos mesmos. Um dos grandes exemplos de tais características é o seriado Lost. Editado de forma não linear, e repleto de referências intertextuais, fez com que os fãs, valendo-se da cultura participativa, tivessem que dedicar parte de seu tempo para o entendimento e a solução dos mistérios da trama, por muitas vezes buscando nas obras originais citadas explicações para o andamento da trama.

Carlos Scolari, em uma publicação de 2008, faz uma análise quantitativa do crescimento do número de personagens nos seriados norte-americanos, tomando como partida I Love Lucy, dos anos 50, e passando por programas como E.R. (Plantão Médico) e Sopranos. Se o número de personagens é um fator determinante na identificação de uma trama complexa, Lost pode, definitivamente ser encaixado em tal categoria. Além de um número grande de personagens, o seriado possui muitas conexões entre eles, descobertas ao passar das temporadas. Também existe a presença de vários arcos dramáticos estendidos e cliffhangers – momento de tensão que impulsa o espectador a esperar pelo próximo capítulo da trama. A tabela a seguir é uma tentativa de demonstrar tamanha complexidade (vale lembrar que ela foi feita em 2006, ainda na metade do programa, e que muitos outros sub-plots se desenvolveram após isso).

Além da complexidade de seus episódios, destacamos o mundo expandido de Lost através de suas extensões transmidiáticas: episódios desenvolvidos para serem assistidos em dispositívos móveis, ARGs (alternate reality games, ou jogos de realidade aumentada), livros, o game, e os bonecos lançados. Se a produção oficial criou vários produtos em uma mesma narrativa, o mesmo pode se dizer da produção “paralela”, dos fãs – responsáveis, através de fóruns de discussão e produções paralelas – fan-fictions, infográficos, etc. Antes das definições de convergência e transmídia de Henry Jenkins, J. Murray, no fim dos anos 1990, já projetava uma integração das produções audiovisuais com a internet, o que chamou de formato “hiperseriado”: “formato em que os artefatos do mundo ficcional da série de televisão começam a migrar para o espaço enciclopédico da internet, onde o público pode desfrutar de interação virtual com navegação“.

Como curiosidade, alguns vídeos de Invenção de Morel, adaptação cinematográfica de um romance de Adolfo Bioy Casares, uma das grandes referências na criação da trama de Lost – a história de uma ilha em que foram feitos experimentos radioativos – as cobaias do Dr. Morel foram mortas e transformadas em uma espécie de holograma real. Ao se deparar com tais imagens de pessoas que não existem mais fisicamente, presas a um loop temporal, o náufrago que encontra a ilha opta por morrer, e se transformar em um deles para “ser eterno”.

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Cena de Lost – referência explícita à Invenção de Morel. O personagem Sawyer lê o livro do escritor argentino:

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